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TL;DR: Ambos podem funcionar — mas o imobiliário custa mais do que parece e, com €25.000, raramente tens capital suficiente para entrar em boas condições. Para a maioria das pessoas nesta faixa, a bolsa ganha por simplicidade, custo e liquidez. Os números estão aqui para decidires por ti.
Aviso: Este conteúdo é educativo. Não constitui aconselhamento financeiro, legal ou fiscal. Os pressupostos estão listados abaixo. Para aconselhamento personalizado, consulta um profissional licenciado.
Tens €25.000 poupados. Talvez tenha demorado anos. E de repente toda a gente tem uma opinião.
O teu pai diz para comprar casa, que "imóvel nunca perde valor". Um amigo diz que mete tudo em VWCE e não pensa mais nisso. Um colega acabou de comprar um T1 no Porto para arrendar e está convicto que é o melhor investimento que fez.
O problema não é a falta de opiniões. É a falta de números.
Este artigo não te vai dizer o que fazer. Vai mostrar-te o que cada opção realmente custa, o que pode render, e onde está o risco — com números portugueses, não com médias americanas.
Cenário simples: tens €25.000 disponíveis para investir. Horizonte de 10 anos. Duas opções:
Opção A — Bolsa: investes os €25.000 em ETFs de índice global (como VWCE ou IWDA).
Opção B — Imobiliário: usas os €25.000 para entrar num imóvel para arrendar.
Vamos correr os números de cada um.
Compras €25.000 em VWCE através de um broker como DEGIRO ou Interactive Brokers. Custo de transação: ~€50 (comissão + imposto de selo de 0,4%). Deixas estar 10 anos.
O retorno histórico de um índice global (MSCI World) está em torno de 7–8% ao ano nominalmente, já a incluir dividendos reinvestidos. Vou usar 7% — o lado conservador.
| Pressuposto | Valor |
|---|---|
| Capital inicial | €25.000 |
| Retorno anual (nominal) | 7%/ano |
| Período | 10 anos |
| Taxa IRS sobre mais-valias | 28% |
Após 10 anos a 7%/ano:
€25.000 × (1,07)¹⁰ = €49.179
Lucro bruto: €24.179
IRS sobre mais-valias (28%): €6.770
Valor líquido após imposto: €42.409
Investiste €25.000. Tens €42.409. Ganho líquido de €17.409 — sem fazer nada, sem gerir nada, sem ligações de inquilinos às 11 da noite.
Aqui começa o problema que ninguém te conta logo.
Com €25.000, não entras facilmente no imobiliário em Portugal — especialmente nas cidades grandes. Vou usar um apartamento de €125.000, um valor realista numa cidade média como Coimbra, Braga ou Setúbal.
Para financiar este imóvel, o banco financia normalmente até 80% do valor. Isso significa:
Mas há custos de transação que ninguém mete na equação logo de início.
| Custo de transação | Valor estimado |
|---|---|
| IMT (imposto municipal — regime de investimento) | ~€3.750 – €6.500 |
| Imposto de Selo (0,8% do valor) | €1.000 |
| Escritura + registo + advogado | ~€1.500 |
| Total estimado | ~€6.250 – €9.000 |
Nota: Os valores de IMT variam consoante o uso (habitação própria vs. investimento) e são actualizados anualmente. Verifica os valores actualizados no Portal das Finanças antes de qualquer decisão.
Ou seja: para entrar num imóvel de €125.000, precisas da entrada (€25.000) mais €6.000–€9.000 em custos de transação. O teu orçamento de €25.000 não chega sozinho.
Assumindo que consegues cobrir os custos de transação com outras poupanças, vamos continuar.
Hipoteca de €100.000 a 5% em 30 anos: prestação mensal de ~€537.
Rendimento de arrendamento com yield bruta de 4%: €417/mês.
| Item | Valor mensal |
|---|---|
| Renda bruta recebida | +€417 |
| Prestação da hipoteca | −€537 |
| Cash flow mensal | −€120 |
Estás a pagar €120/mês do teu bolso só para manter o imóvel. E isso antes de:
A rendibilidade líquida real do arrendamento em Portugal fica frequentemente entre 2–3% depois de todos estes custos — não os 4–6% que aparecem nas calculadoras superficiais.
Assumindo 3% de valorização anual (conservador, mas sustentável em média histórica):
€125.000 × (1,03)¹⁰ = €168.000
O imóvel vale mais €43.000 ao fim de 10 anos — mas ainda tens ~€85.000 de dívida hipotecária em aberto. O teu capital próprio líquido é a diferença entre o valor do imóvel e o que ainda deves.
As mais-valias de imóveis de investimento em Portugal são tributadas: 50% do ganho é englobado no rendimento tributável. A taxa efectiva depende do teu escalão de IRS — consulta um técnico oficial de contas para o teu caso concreto.
| Bolsa (VWCE) | Imobiliário | |
|---|---|---|
| Capital necessário | €25.000 | €25.000 (entrada) + €6k–€9k em custos |
| Valor ao fim de 10 anos | €42.409 (líquido de IRS) | €168.000 bruto (ainda com dívida) |
| Cash flow mensal | €0 | Potencialmente negativo |
| Liquidez | Alta (dias) | Baixa (meses, com custos) |
| Diversificação | Global (milhares de empresas) | 1 imóvel, 1 cidade |
| Gestão activa necessária | Não | Sim |
| Alavancagem | Não (por defeito) | Sim (hipoteca) |
A comparação do valor ao fim de 10 anos não é directamente equivalente: no imobiliário, o valor bruto do imóvel não é o teu lucro — tens ainda de subtrair a dívida remanescente, os custos acumulados e os impostos. Para uma comparação justa, calcula sempre o capital próprio líquido.
O imobiliário tem uma vantagem que a bolsa não tem por defeito: a hipoteca permite-te controlar um activo maior do que o capital que investes.
Com €25.000, controlas um activo de €125.000. Se o imóvel valorizar 20%, o teu lucro é calculado sobre os €125.000 — não apenas sobre os €25.000 que puseste. Isso amplifica o retorno.
Mas o inverso também é verdade.
Se os preços caírem 20%, o teu activo vale €100.000 — mas ainda deves ~€95.000 ao banco. O teu capital próprio passou de €25.000 para €5.000. Uma queda de 80% no teu investimento com uma queda de 20% no mercado.
A alavancagem não é má por si só. Amplifica tanto os ganhos como as perdas. O que muda é o risco que estás a assumir — e a maioria das pessoas subestima este ponto quando fala de imobiliário com entusiasmo.
Se precisares do dinheiro daqui a 6 meses, o que acontece?
Com a bolsa: vendes. Dois dias depois tens o dinheiro na conta.
Com o imobiliário: publicitas o imóvel, encontras comprador, negoceias o preço, marcas escritura, fazes o registo. Estamos a falar de 3–6 meses no mínimo — e isso se o mercado estiver favorável. Se não estiver, vendes a desconto ou não vendes.
Isto não é um argumento contra o imobiliário. É um lembrete de que imóveis são ilíquidos por natureza. Antes de investir em imobiliário, a tua situação de liquidez tem de estar resolvida: fundo de emergência sólido, sem necessidade de acesso rápido ao capital investido.
"Casa nunca perde valor." É a frase mais repetida em Portugal sobre investimento imobiliário.
É também empiricamente discutível. O mercado imobiliário português teve quedas reais significativas entre 2011 e 2013. Quem comprou no pico de 2007–2008 esperou mais de uma década para recuperar o valor nominal — sem contar a inflação.
O imóvel tem uma utilidade real que a bolsa não tem: podes viver lá, podes arrendar, tem um valor de uso tangível. Mas isso não significa que seja sempre o melhor investimento — significa que é um activo diferente, com características diferentes.
A bolsa assusta porque é visível. Vês o preço a variar todos os dias. O imóvel tranquiliza porque não tens um ticker a piscar no ecrã. Mas a volatilidade existe na mesma — só não a vês em tempo real.
A questão não é "imobiliário vs bolsa". A questão é: para o teu capital, o teu horizonte e a tua situação actual, qual faz mais sentido?
Para a maioria das pessoas com €25.000 e um horizonte de 10 anos: a bolsa é o ponto de partida mais lógico. Não porque o imobiliário seja mau — mas porque com €25.000, as condições para entrar bem no imobiliário raramente estão reunidas.
Se queres começar na bolsa: lê o guia sobre como escolher um broker em Portugal e como comprar o teu primeiro ETF.
Se estás a ponderar imobiliário: antes de qualquer decisão, calcula o yield líquido real com todos os custos e confirma se o cash flow é positivo com as taxas de juro actuais.
Se tens dúvidas sobre fiscalidade: o artigo sobre IRS e investimentos explica como são tributadas as mais-valias de acções e de imóveis em Portugal.
Se ainda não tens fundo de emergência: este deve ser o primeiro passo antes de qualquer investimento — bolsa ou imobiliário.
Depende da tua situação. Com capital suficiente para a entrada, custos de transação e reserva de liquidez, e numa localização com yield real positiva, pode fazer sentido. Para a maioria das pessoas com menos de €50.000 disponíveis, a bolsa é um ponto de entrada mais acessível e eficiente em custo.
São decisões diferentes. Comprar casa para habitação própria tem um componente de qualidade de vida que vai além do retorno financeiro. Comprar casa para investimento é uma decisão puramente financeira — e precisa de ser avaliada com os números reais de custos, yield e fiscalidade, não com intuição.
Para um apartamento de €125.000, precisas de aproximadamente €31.000–€34.000: €25.000 de entrada (20%) mais €6.000–€9.000 em custos de transação (IMT, imposto de selo, escritura). Para imóveis em Lisboa ou Porto, os valores são significativamente mais elevados.
A rendibilidade bruta do arrendamento residencial em Portugal ronda os 3–6% ao ano, dependendo da localização. Depois de custos de manutenção, IMI, condomínio, períodos de vazio e IRS sobre rendas, a rendibilidade líquida fica tipicamente entre 2–3%.
Sim. Existem fundos de investimento imobiliário (FII) cotados em bolsa — conhecidos como REITs — que te permitem ter exposição ao imobiliário com muito menos capital e com a liquidez da bolsa. Em Portugal, o mercado de REITs é ainda limitado, mas podes aceder a REITs europeus e globais através de ETFs.
| Variável | Valor usado | Fonte |
|---|---|---|
| Retorno bolsa (nominal) | 7%/ano | MSCI World, média histórica |
| IRS sobre mais-valias (bolsa) | 28% | Código do IRS, Portugal |
| Yield imobiliária bruta | 4% | MSCI Portugal 2022 via Público |
| Valorização imóvel | 3%/ano | Estimativa conservadora |
| Taxa hipoteca | 5% | Estimativa — verificar taxa actual BCE |
| Custos de transação | ~8% | IMT + Imposto de Selo + notário — verificar Portal Finanças |
| Taxa IRS sobre rendas | 25% / 10% | OE2026 (Doutor Finanças / Portal das Finanças) |
Versão: v1.0 | Última revisão: Fevereiro 2026
Changelog: v1.0 — publicação inicial.
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